“A Judia” de Tomás Ribeiro (19.12.2009 no XI Encontro de Poesia e Canto)

A Judia

de Tomás Ribeiro
Corria a branda noite; o Tejo era sereno;
a riba, silenciosa; a viração subtil;
a lua, em pleno azul erguia o rosto ameno
no céu, inteira paz; na terra, pleno Abril.
Tardo rumor longínquo; airoso barco ao largo
bordava áureo listão do Tejo ao manto azul;
cedia a natureza ao celestial letargo;
traziam meigos sons as virações do sul.
Ó noites de Lisboa! ó noites de poesia!
auras cheias d’aromas! Esplêndido luar!
vastos jardins em flor! Suavíssima harmonia!
transparente, profundo, infindo, o céu e o mar…
Se a triste da judia ousasse ter desejo
de pátria sobre a terra, aqui prendera o seu:
um bosque sobre a praia, um barco sobre o Tejo,
o leito da minh’alma um coração só meu!…
Corria branda a noite; imersa em funda mágoa
fui assentar-me triste e só no meu jardim;
ouvi um canto ameno! E um barco ao lume d’água
vogava brandamente. A voz dizia assim:
– “Dormes? e eu velo, sedutora imagem,
grata miragem que no ermo vi;
dorme – Impossível – que encontrei na Vida!
dorme, querida, que eu descanto aqui!
Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
virgens, risonhos, que te vem dos céus:
dorme: e não vejas o martírio, as mágoas,
que eu digo às águas e não conto a Deus!
Anjo sem pátria, branca fada errante,
perto ou distante que de mim tu vás,
há-de seguir-te uma saudade infinda,
hebreia linda, que dormindo estás.
Onde nasceste? Onde brincaste, ó bela;
rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? Em Malta? Em Nazareth? No Egipto?…
mundo infinito, e tu sem berço?! Oh! Sim,
folha que o vento da fortuna impele,
vítima imbele que um tufão roubou!
flor que num vaso se alimenta, cresce,
ri, desaparece, e nunca mais voltou!
Filha dum povo perseguido e nobre,
que ao mundo encobre o seu martírio, e crê:
sempre Ashevero a percorrer a esfera!
desgraça austera! inabalável fé!
porque há-de o lume de teus belos olhos,
mostrar-me anelos d’infinito ardor?
porque esta chama a consumir-me o seio?
Deus de permeio nos maldiz o amor!…
Peito! meu peito, porque anseias tanto?
pranto! meu pranto, basta já, não mais!
é sina, é sina! Remador, voltemos;
não n’a acordemos… para quê, meus ais?…
Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
grata miragem que no ermo vi:
dorme – Impossível – que encontrei na vida!
dorme, querida, que eu não volto aqui!” –
Sumiu-se a barca, e eu chorava
debruçada sobre o Tejo;
a aragem trouxe-me um beijo
que nos meus lábios tomei…
ergui-me cheia d’afecto;
vi cintilar ainda a esteira
da barquinha feiticeira,
E disse às auras: – “Correi!
trazei-mo! Quero contar-lhe
o fundo tormento enorme
da judia que não dorme
a penar d’ignoto amor!
voai! trazei-me o seu nome,
o seu retrato, o seu canto,
uma baga do seu pranto
que venha! o meu trovador!…
Ai, não! que há na minha história
que lhe suavize a tristeza?
Nasci na triste Veneza,
onde perdi minha mãe;
acalentaram-me lágrimas
que derramava a saudade,
na desgraçada cidade
que não tem pátria também.
Cresci; meu pai uma noite
Disse-me: – “É já tempo agora;
ergue-te ao romper da aurora,
vamos partir amanhã;
vamos ver as terras santas,
sepulcros de teus monarcas;
a pátria dos patriarcas,
desde o Egipto ao Chanaan.”
Fui; corri o mapa imenso
das montanhas da Judeia;
ai, pátria da raça hebreia!
ai, desditosa Sião!
que extensos montes sem relva!
que paragens sem conforto,
onde se estende o Mar-Morto
e onde serpeia o Jordão!…
Aqui, de Hemor os vestígios;
de Sife, além o deserto,
longe, o Sinai encoberto;
d’Horeb o morro, ainda além;
deste lado, o Mar Vermelho;
daquele… nada! Uns destroços:
ruínas, campas sem ossos,
e, ao fundo, Jerusalém.
Meu pai chorava, e eu chorava,
vendo morta e sem prestígio,
terra de tanto prodígio,
maldita agora de Deus.
Tudo silencioso, estéril,
tudo vastos cemitérios
onde ruínas d’impérios
ficaram por mausoléus!
– “Meu pai – disse eu – tenho sede.”
– “Vê, filha, a aridez do monte:
Só Deus dava ao ermo a fonte
Em que bebia Ismael.”
-“Pai, cansei; mostra-me a pátria,
Quero dormir sem receio…”
– “Filha, encosta-te ao meio seio,
que não tem pátria Israel.”
Em todo o mundo estrangeiro,
toda a vida peregrina!
Vede se há mais trsite sina;
ser rica e não ter um lar!
Sempre a lenda do Ashevero!
sempre o decreto divino!
sempre a expulsar-me o destino,
como Abraão à pobre Agar!
Que pode valer à hebreia
sentir n’alma chama infinda,
como a linda Ester ser linda
e amada como Raquel?
Se o coração da judia
se entreabre do amor aos lumes,
não lhe dá tempo aos perfumes
o seu destino cruel.
Ai, trovador nazareno,
não voltes! Tenho receio…
Dizes que é Deus de permeio?
não, blasfemaste: Deus, não.
Pôs o mundo esse impossível
entre o desejo e a ventura;
o amor chama-lhe – loucura,
e o preconceito razão.
Deus é Deus, e um só existe;
cego é o mundo, e vária a crença;
mas esta cúpula imensa
é tecto de todos nós:
este ambiente que respiro,
da lua e do sol os brilhos,
hão-de ser de nossos filhos,
foram de nossos avós.
Mas se a crença nos separa
e o mundo exige o suplício,
dê-se o amor em sacrifício,
deixando-se o pranto à dor;
eu, cerro o peito à ventura;
tu, esmaga o teu desejo;
não mais virei junto ao Tejo…
não voltes mais, trovador!