“Minha Barca!” de Tomás Ribeiro (30.06.2012 na Casa do Concelho de Tondela em Lisboa)

Minha Barca!

de Tomás Ribeiro
Minha barca, ao largo! Ao largo!
Longe a praia, longe o mundo!
Ao sentir, que é tão profundo,
a solidão somente apraz.
Fiquem lá na terra embora
os mimosos da ventura;
barca, dá-me a aragem pura,
as solidões, o ermo , a paz! (8)
Dá-me a paz, que entre os humanos
chamo em vão, e em vão desejo;
onde busco e nunca vejo
o que pede o coração;
onde espiam nos meus olhos
um segredo, um sentimento,
e um ouvido há sempre atento…
Barca, dá-me a solidão! (16)
Proa ao mar, e rumo à sorte,
Minha barca airosa e bela!
Venha o sul! Venha a procela!
Que te importa o temporal?
Sobe as vagas! Desce! Voa!
Rasga a vela! Quebra o leme!
Coração triste não teme
Escarcéus, nem vendaval! (24)
Adeus, praia! Adeus, família!
adeus, prados! Adeus, relvas!
adeus, cânticos das selvas!
adeus, rosas dos salões!
minha barca, solta e livre
como a rosa destroncada,
vai contente acalentada
entre os braços dos tufões. (32)
Se eu achar por sepultura,
ao fugir do mundo às mágoas,
vosso abismo, ó fundas águas,
quem pranteia o mártir? Quem?!
E se um vento bonançoso
me encontrar sozinho e absorto,
e levar a marca a um porto,
quem me acolhe ali? – ninguém!… (40)
Minha barca, ao largo! Ao largo!
longe a praia, longe o mundo!
ao sentir, que é tão profundo,
a solidão somente apraz.
Fiquem lá na terra embora
os mimosos da ventura;
barca, dá-me a aragem pura,
a solidão… a morte em paz!… (48)